Menos um dia

Hoje eu revirei meus baús e encontrei tanta coisa antiga. Tanta mágoa guardada, tanta noite mal dormida.

Hoje eu revirei meus baús e encontrei muita coisa esquecida, perdida, entulhada, abandonada. Encontrei coisas que nem lembrava que eu tinha. Que nem lembrava que eu era.

Papéis amontoados. Uns escritos, outros rasgados. Histórias reais em forma de poesia. Tristeza, medo, melancolia. Quanta gente! Quanta lembrança! Muito temor. Pouca esperança.

Muita gente que me queria mal e eu queria bem. Inúmeras ilusões. Fantasias de amor. Desejo. Carência. Dor e mais dor.

Cada texto escrito, uma decepção vivida. Cada linha traçada, uma mágoa gerada.

Eu que pensava que já conhecia o amor, não sabia de nada. Me joguei de cabeça, em muita gente errada. E chorei em desespero, por não ter sido amada. Fui uma tola, impaciente, revoltada.

E tudo virava letra. Tudo virava verso. Está aí uma parte boa; confesso! A tristeza sempre me inspirou. Sempre foi minha melhor companhia… E por andar tão alegre, tão feliz, tão em paz, há tempos não escrevia.

Depois de tudo que passei, das muitas vezes que quebrei a cara, mergulhando em pessoas rasas, vazias; eu me encontrei.

Encontrei alguém que me encontrou também.

Fui feliz. Sou feliz. Feliz por inteira. Sem mendigar amor. Sem chorar por besteiras.

Hoje revirei meus baús e encontrei muita coisa antiga. Há tempos não me sentia tão triste. Mas, essa tristeza hoje tem sentido real.

O nome dela é SAUDADE!

Saudade que me mata, me consome, me domina.

Mas, vais passar!

Logo ele volta com aquele sorriso lindo, aquele jeito de palhaço bobo, que me encanta me fascina.

Vou beber saudade a semana inteira. Posso até me embriagar. Mas, eu sei, tenho certeza; que desta vez a tristeza é passageira.

 

 

 

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Um Conto Bobo

Um dia você vai descobrir o porquê nunca deu certo antes.

Um dia alguém vai entrar na sua vida e vai ficar por querer. Vai pousar, mesmo podendo voar. E neste dia você vai sentir um frio na barriga, um arrepio na nuca. Você pode até chorar… Mas, serão lágrimas de felicidade, de alivio…

Talvez você sinta até um pouco de medo, por tamanha alegria. Mas, enfim, você vai entender que nada acontece ao acaso. Enfim você vai perceber que valeu a pena passar por tudo o que passou. Conhecer todos os tipos de pessoas que conheceu. E até mesmo sofrer o que sofreu.

Quando tudo isso acontecer, você vai se comportar feito um bobo. Vai ter um brilho tão grande no olhar, que qualquer um será capaz de notar que você está apaixonado. Você vai sorrir para as paredes, cantar desafinado, escrever versos tolos… Afinal, como já dizia o poeta; “Todas as cartas de amor são ridículas”

Quando tudo isso acontecer, vai ser perfeito. Vai ficar claro que é ele a pessoa certa, pelo cheiro, pelo abraço, pelo seu jeito de te olhar, pelo encaixe perfeito de suas mão entrelaçadas… Ele nem vai precisar te acordar no meio da noite para dizer que te ama, embora esta seja a melhor sensação do mundo!!!depositphotos_29917179-Black-and-white-photo-of-shadow-of-a-couple-walking-on-a-street

O SHOW – FIM!

Continuação do conto: https://revistagaveta.wordpress.com/2012/08/11/o-show-sob-um-novo-olhar/
Passou-se muito tempo. Tempos duros, de um governo cada vez mais repressivo. O Café Corisco havia sido fechado, como era esperado, e muitos se perderam. Alguns amigos fugidos, alguns desaparecidos para nunca mais. Havia partido antes que tudo isso acontecesse. Mas deixara nome, endereço. Sabia do risco, mas tinha uma leve esperança de que ele a procurasse novamente. O tempo havia passado, três, quatro anos, nem sabia ao certo, mas não passara a lembrança da noite que tiveram e dos olhos dourados que a acompanhara.
Agora era uma pacata professora de francês. Andaram procurando-a. Chegaram a acompanhar suas aulas, buscar com quem se encontrava, o que dizia. Mas suas aulas eram basicamente sobre “Je t’aime” ou “nostalgie” e perderam o interesse por ela.
Nunca mais o tinha visto. Não sabia se os militares o haviam encontrado, ou se talvez houvesse se perdido em algum emprego burocrático e comum. Só sabia das lembranças de uma noite, quente e chuvosa, como nenhuma outra que havia tido. De uma noite de surpresas e encontros.
Ficou muito tempo à espera de seu retorno. Noites e noites no Café Corisco, esperando pela surpresa de sua volta. Às vezes, a esperança é uma coisa dolorida, bicho esquisito que teima em não morrer. Talvez fora somente isso, uma noite como outra qualquer. Talvez ele estivesse acostumado a perder-se em bares e madrugadas. Talvez tivesse se casado e aquilo não passara de uma noite de loucura. Talvez estivesse morto. Havia muitas e muitas formas diferentes de morrer.
Por fim, soube que ele não voltaria mais. Perdeu as esperanças, deixou-se seguir. Seu tempo de palhaça ficara para trás como muitas outras boas lembranças ficavam. Mas às vezes, só às vezes, em meio às madrugadas de chuva, ainda pensa como teria sido se houvessem ficado juntos, se talvez tivessem fugido com um circo qualquer…

Conto de Emerson da selva: https://revistagaveta.wordpress.com/2012/08/09/o-show/

Desenrolar

Jurou que não faria de novo. Mais um dia de ressaca, onde odiava a todos, e só queria se esconder sob as cobertas. Não sabia mais qual era o sentido disso tudo. Passava as noites entre muitos e a cada copo virado tornava-se mais e mais a sensação do lugar: contava piadas, dançava, falava aos berros, era a alegria do lugar. Sua mesa era sempre uma sensação, não importava onde ou com quem estivesse. Todos queriam sua presença. Era preciso seguir. Era preciso manter o copo cheio, seja porque o fosse, senão, se parasse por um só instante, se sentiria desmoronando. Só mais uma noite, só mais essa noite.
Mas era no outro dia que se perdia. Era no amanhecer de outra manhã como outra qualquer que se tornava o próprio caos em meio à solidão. Amigos seguiam suas vidas, empregos, casamentos, filhos. E as pessoas ao redor eram sempre outras e também partiriam. Sua vida cansava, seu emprego se arrastava entre papéis que não lhe diziam nada e ordens que fingia não ouvir. Sua casa era somente um lugar onde guardar suas coisas e a solidão… Ah, a solidão que não partia!
Foi enfim numa noite, ao dar-se diante de uma ponte que resolveu olhar pra baixo. O vento frio a lhe soprar o rosto. E viu ali o rio iluminado pela noite clara. Foi assim, num único instante que se decidiu:

PROPOSTA: Continue a história. Qual resposta que você acha que ele/ela finalmente encontrou para sua libertação? Solte sua inspiração e sinta-se livre para terminar essa história, que agora é de todos nós.

Música inspiração: https://www.youtube.com/watch?v=2vjPBrBU-TM

Essa tal liberdade

Um texto de Paula Cristiane

No último fim de semana estive em Assis, interior de São Paulo, para a despedida de um casal de amigos que estão partindo da cidade, caminhando em direção a um futuro que certamente lhes trará grandes experiências. Para não dirigir sob o entardecer cada vez mais escuro do interior, ficamos, eu e uma colega, na casa de outra amiga que reside também na cidade. O que elas têm em comum? São minhas amigas, psicólogas, professoras, e acima de tudo: têm gatos. É claro que a última característica, além de curiosa, é fundamental para minha reflexão. Elas, assim como grande parte das minhas professoras, têm gatos como companhia no dia a dia. Assim surge, volta e meia, uma discussão saudável que põe em pauta a fidelidade dos felinos. Ouvi, curiosamente, da amiga que me ofereceu estadia: “para ter gatos você precisa aprender a respeitar a liberdade deles(…)”
Sempre pensei que sabia respeitar essa tal liberdade. Descobri que não é tão simples assim. Fiz uma reflexiva associação entre os animais e minha relação com os amigos, coube simetricamente e pude então entender qualquer coisa sobre mim, eles e essas criaturinhas de quatro patas. Torna-se importante dizer que os cães me atraem, amigos fieis sempre ao lado. Faça chuva faça sol eles nos acompanham e se divertem com nosso retorno para casa após um longo dia de trabalho. Outro ponto importante que deve ser considerado é que eu, fundamentalmente, sou reflexo das minhas relações: simplesmente não saberia viver só. Essas relações são saudáveis e cuido para que os amigos sejam sempre lembrados. Desdobro-me para ter tempo para o trabalho, os estudos, a casa, família e amigos, mesmo vivendo na loucura que nosso século oferece.
Tenho amigos “cachorros”, parceiros para todas as horas. Como é bom tê-los por perto e sentir que sou querida por eles, como é bom quando, num mundo individualista, encontramos pessoas que nos alimentam dos prazeres que uma boa amizade pode oferecer. Mas, embora sejam a maioria, não são tudo o que há em mim, além dos amigos “cachorros” existem os que estão mais para “gatos” mesmo. Esses são curiosos, têm aquela tal liberdade com que eu pensei que sabia lidar. Sei nada. É diferente ver como se apresentam, como se aproximam, quando juntos interagimos bem, mas aquela proximidade frequente que os cães nos oferecem não. Gatos aparecem, não quando precisam de comida necessariamente, mas, quando querem aparecer, quando se sentem bem para tanto.
Não se trata de jogo, pouco caso, infidelidade ou, até mesmo, deslealdade, é Liberdade mesmo com todas as letras. É um charme que os cachorros não têm, e possivelmente não terão; um mistério singular que exige muito dos adeptos da matilha. Devo admitir que os gatos têm seu charme, seu encanto. Talvez eu adote um. Assim posso entender mais sobre meus amigos, assim posso tentar entender mais sobre essa liberdade. A inquietude que causa não saber se estão bem, por ora, tento substituir pela certeza de que gatos são espertos, sabem bem se cuidar sozinhos.
As amizades vêm e vão, algumas é uma pena deixar ir. Mas será que vão mesmo? Hora ou outra, quando menos esperamos, não como os cães mas como gatos, eles aparecem e tudo, por alguns minutos, volta a ser como sempre foi. E então eles somem, felinos que são, para gozar de uma liberdade sem frescura. Até o acaso os fazer voltar. Se quiserem ficar, a porta aberta não será um problema, se quiserem ir, fechar tudo não será eficaz. A questão é que devemos aprender a aceitar os afetos que construímos, cada um a seu modo, como deve ser.

Uma lição sobre o amor

Ela era uma menina linda! Às vezes se recusava a acreditar, mas no fundo ela sabia, que era mesmo linda. Tão linda quanto poesia. Ela tinha umas manias estranhas, tão peculiares a ela, que a tornava ainda mais bela. Falava sozinha, andava descalça, contava estrelas, acreditava em sinais. Oh, quanta beleza! Ela tão diferente. As outras todas iguais. Em alguns dias da semana acordava com um animo tão intenso, que parecia contagiar. Mas, tinha dias, que nem ela conseguia se suportar.  Ela era uma menina linda, com um sorriso lindo, estampado no rosto. Sorriso este, que às vezes escondia uma tristeza imensa, que ninguém precisava saber.  Entre suas estranhas manias havia uma que ela sabia que deveria conter. Ela tinha uma mania boba de se apegar demais as pessoas sem um determinado porquê. E isso nos últimos tempos, vinha a fazendo sofrer.

Ela sempre foi muito sozinha, desde pequenininha. Mesmo na multidão. Talvez por isso se apegue tanto com qualquer gesto de atenção. Ela tinha mania de se envolver demais e de se deixar levar. Se apaixonava por um sorriso, algumas promessas, um simples olhar. Acreditar nas pessoas. E é isso que a fazia diferente. Decepcionava-se tanto, mas continuava em frente. Seu coração, pobre coitado, já não sabia o que fazer. Vinha apanhando muito. Quase não conseguia bater.

Ela era uma boa atriz, porque quem a via por aí, a julgava muito feliz. Porém ela andava cansada, desanimada, amedrontada. Tinha um medo tão bobo e tão louco; morrer sem ser amada. Ela ainda era tão menina, e não imaginava o tamanho do seu potencial.  Conseguia só com um sorriso conquistar qualquer “cara” normal. Mas, como não sabia disso, “mergulhava de cabeça” numa relação, toda vez que conhecia alguém. Pessoas vazias, ou com intenções diferentes. Nunca terminava bem.

Ela era uma mulher incrível. Cheia de grandes qualidades. O problema, é que ela não acreditava nisso. Essa é a maior verdade. Preocupava-se demais com a opinião alheia, insistia em coisas sem futuro, fazias muitas besteiras. Vivia mendigando carinho, implorando um minuto de atenção, contentava-se com migalhas, maltratava seu coração.

Hoje não sei onde ela está. Nem qual o rumo a vida dela tomou. Só sei que as coisas começaram a mudar, quando para si mesmo ela olhou.  Ela era uma menina linda. Tão linda quanto poesia. E ela se deu conta disso amando-se um pouquinho a cada dia. Ela descobriu que o amor é um sentimento nobre demais para ser mendigado, mas continua acreditando naquela conversa de que só é feliz quem é amado. Porém, que fique bem claro, o amor de verdade, o amor que faz realmente bem, é aquele que vem de dentro pra fora, que não nos faz dependente de ninguém.  Essa história de duas metades que se completam, é uma grande besteira. A gente só vai merecer amar e receber amor de outro alguém, depois de se amar por inteira.

TANTO AMOR!

Possuída de um corpo que não brotava. Seco e morto como o árido solo. E tanto amor a transbordar pela pele, pelos poros, pelo respirar. O que fazer com um amor que já não cabe no peito e um desejo de ouvir a palavra mãe? Morria aos poucos. A felicidade de ver a maternidade em outras era suprimida pela raiva com um corpo que não gestava.

E foi assim, ao sair de cena de mais um Dia das mães que, aos trambolhões, topou com ele. Pequeno, sujo, perdido, de olhos úmidos e mãos pegajosas, que ao invés de pedir, perguntou: “A senhora está bem, dona?” Foi o instante do chamado. Sabia agora qual era o seu destino. E a partir de então, foi mãe de muitos, de tantos, de filhos que cresciam e partiam para que outros chegassem. Mãe de tantos outros pequenos do mundo que por aí encontrava. E o amor não tinha fim. Filhos postiços? Não! Eram dela mesmo, bastava o tempo do encontro. Uma maternidade que nunca acabava, e por todos seus dias sorriu, até o fim!

A todas as mamães do mundo! De todas as formas!

 

 

 

 

 

ELA

Ela:Não vou!

Ele:Pena! Você seria uma ótima companhia

E ele foi… disse que riu e chorou.

ela não chorou!

Só viu o sol que nasceu por três dias se esconder na noite fechada.

Ele voltou! Trouxe de longe um jeito que ela não conhecia.

A levou num cavalo negro. Subiram a grande montanha.

Anoite era só testemunha.

E mais e mais montanhas apareceram.

Era fácil ir….

mãos…..

bocas…..

sexo se tocavam!

Momento houve que sonho e toque romperam a razão.

E quando a luz se fez… Comeram o pão de cada dia.

Cada um pegou o seu corcel.

Ele continuou em seu cavalo negro.

Ela se deixou levar pelo condutor estrangeiro.

A poesia acabou?

Ninguém sabe!

Somente o sabor…

Maçã!

Crônica de Fátima Campidelli

O perigo dos encontros

“Faz de conta que ela não estava chorando por dentro, pois agora, mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado.” C.Lispector – Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.

Sorriu frente ao espelho e não gostou do resultado refletido. Na verdade, odiava observar-se em um, mas hoje havia sido diferente. Era uma noite como outra qualquer, convencia-se, mas o calor que lhe vinha aquecer as faces e uma agitação maior que a normal diziam-lhe o contrário. Forçou um novo sorriso e isso a fez lembrar-se dos grandes sorrisos vazios dos palhaços. O quarto e a cama repleta de roupas também a contrariavam. Já fazia muito tempo que estiveram juntos, era isso.
Ao maquiar-se as mãos tremiam. Maldita miopia que a impedia de enxergar-se e voltou a pensar nos palhaços. Odiava palhaços e espelhos! Queria ter certeza de estar bela, sabia que estava, mas ao fitar-se não encontrou quem sempre estava ali e isso a entristeceu. Achou que estava novamente com febre, enquanto uma leve brisa estremecia-lhe o corpo e lhe ruborizava a face. Era bom saber que poderiam conversar depois de tanto tempo, foram amigos e cúmplices desde o início. Observou-se mais uma última vez no espelho. Sabia que não se arrumava pra ele, que não viria sozinho. Ao seu lado, a garota pelo qual ele havia partido. Ou talvez não fosse assim, quem sabe. “Certeza que dou para o mal”, pensou parafraseando Clarice e sorriu.
Olhou ao redor e sentiu-se perdida. Já não sabia se estava ali por desejo ou a contragosto. Queria muito ver seu amigo, sentia saudades, mas sabia que isso talvez não fosse bom. Estavam a mesma mesa, um frente ao outro, depois de tanto tempo. Eram os mesmos amigos ao redor, o mesmo bar, mas tudo estava diferente. A não ser pelos seus olhos que lhe acompanhavam os gestos. Sentia-se quente e meio tonta quando foram apresentadas. Reconheceu-a de imediato, todas as bruxas se reconhecem, e essa que se sentava a sua frente era perigosa.
A noite transcorria relativamente calma, sob conversas amenas do cotidiano. Quando optou por tomar vinho viu-o arquear as sombracelhas como a lhe lembrar das memoráveis madrugadas que passaram juntos regadas a cerveja. Não, você não me conhece tão bem assim, quis lhe dizer. Mas logo desviou o olhar, pois pouco confiava em si mesma a perder-se sob o efeito daqueles olhos.
O constrangimento inicial ia esvaindo-se conforme o tempo transcorria e já conversavam como se não houvesse distâncias, como sempre faziam. Em dado momento, em meio a conversa desenfreada do restante da mesa, os dois silenciam e entreolham-se, ele como a perguntar alguma coisa. Não! Não gostei nem um pouco dela. Ela tem cara de bolacha e é perigosa. Você sabe que ela é uma bruxa? Tem consciência disso? Era dessas que se escondiam sob vozes doces e ternas e sorrisos afetuosos até que todos caíssem em seus encantos e fizessem suas vontades. Sentia o poder que emanava daqueles gestos delicados. Ela também sabia que havia sido reconhecida. Dirigia seus olhares a ela numa mistura de raiva e desafio. Nem sabia por qual motivo a outra não havia simpatizado com ela. Ou o sabia e fingia ignorar. O bem da verdade é que esse jogo a cansava e ela já desejava ardentemente partir. Olhava em volta e tudo parecia não fazer mais sentido. Irritava-se com as conversas e risadas alheias e, enquanto respondia sempre com o melhor de seus sorrisos, sua vontade era não estar. Vontades assim contraditórias que ele sempre tão bem havia compreendido e que agora parecia não mais reconhecer. Por vezes olhava-o de relance, em segredo, e chegava a franzir a testa intrigada, procurando por quais caminhos ele havia se perdido, mas era só ele olhá-la e sorrir que logo ela enxergava o menino ainda escondido em seus olhos. Isso de certa forma era um alívio e uma prisão.
Começava a sentir no seu corpo um calor irritante e suas mãos suavam, apesar do frio. As coisas começavam a flutuar ao seu redor e não era o efeito do vinho, que sequer tocara. Novamente pensou ser a febre que se abatera sobre ela o dia todo. Enquanto conversava e sorria, pensava qual motivo a fazia estar ali e porque tudo lhe incomodava tanto. Nunca soube compreender muito bem o poder que aqueles olhos exerciam sobre ela e nem mesmo sabia explicar o que sentia.
Deu-se um dado silêncio enquanto a outra externava planos futuros da compra conjunta de uma casa, no mesmo instante que ele desviava os olhos dos seus, apenas um segundo. Sabia que algo estava errado. Começou a sentir-se zonza e com uma vontade enorme de sair dali. As roupas colavam à pele e tinha impressão que ia desmanchar-se a qualquer momento, liquidificar-se e escorrer por entre os vãos da calçada. E ela a sorrir e sorrir, cada vez mais poderosa.
Buscou com os olhos o céu, sem qualquer sinal de chuva a lhe salvar o corpo, ela que tempesteava-se por dentro. Levantou-se de supetão e disse que precisava partir, inventando desculpa qualquer que sabia não justificar tal partida.
Não se despediu, não conseguia mais ficar ali. Dirigiu perigosamente até sua casa e subiu as escadas com desespero. Atirou-se sobre a água fria do chuveiro, o calor da febre queimando-lhe o corpo e a alma. Misturava-se ao líquido sagrado, vestindo-se de água, desfazendo-se para novamente se recompor. Desta vez havia perdido.

Texto perdido e encontrado ao acaso.

Pretérito Imperfeito

Eu queria tanto que um dia você percebesse que podia ter sido eu

Eu queria tanto que um dia, assim do nada, você se desse conta, de que eu sempre estive ali

Queria que um dia você acordasse no meio da noite e mesmo achando que fosse loucura, me ligasse.

Queria tanto que você olhasse a mulher do seu lado agora, e que sentisse uma enorme vontade de que ela fosse eu

Queria tanto que mesmo você achando que podia ser tarde demais pra tentar voltar atrás e ficar comigo, você viesse me procurar

Eu queria tanto não ter me apaixonado tanto, não ter me envolvido tanto… Queria tanto não te querer tanto

Queria não sonhar com você todas as noites. Principalmente naquelas que nem consigo dormir

Queria tanto não ter que me fazer de forte, enquanto você gaba a sorte de ter encontrado a mulher perfeita, e saber que ela não sou eu

Eu queria que você compreendesse que passei por cima do meu orgulho um milhão de vezes, só pra te ter por mais cinco minutos

Queria tanto não acreditar nos sinais que eu mesma crio pra tentar me convencer de que a gente ainda tem chance

Queria tanto desistir de você com a mesma facilidade que você desistiu de mim

Queria não precisar sair com tanta gente pra tentar te esquecer

Eu queria tanto, não querer tanto, tudo que eu quero pesando em você

Em fim, eu só queria, e queria muito, e queria tanto, que você me quisesse o quanto eu te quero, ou só um pouquinho menos.